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senta que lá vem história


O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu
(Oliver Sacks) - 1970

"No princípio é a ação", escreve Goethe. Talvez seja assim quando nos defrontamos com dilemas morais ou existenciais, mas não quando se trata de origem do movimento e da percepção. No entanto, também neste caso, há sempre alguma coisa que acontece de repente: um primeiro passo (ou uma primeira palavra, como quando Helen Keller falou "água"), um primeiro movimento, uma primeira percepção, um primeiro impulso - total, "inesperado", onde antes não havia coisa alguma, ou nada com sentido. "No princípio é o impulso." Não uma ação, não um reflexo, mas um "impulso", o que é mais óbvio e mais misterioso do que qualquer um dos dois. (67)

Conheci Oliver Sacks nas minhas amadas aulas de neurofisiologia. O professor deixou um texto sobre um caso clínico, entitulado "Nivelado", onde um paciente com mal de Parkinson estava com o equilíbrio seriamente afetado, andando totalmente inclinado para um lado - e no entanto ele não percebia que havia algo errado. Sacks também entrou no meu conhecimento porque um dos livros que usamos nas aulas de neuro são cheios de exemplos dos casos dele, que misturam neurologia com psicologia. Desde então eu havia decidido que tinha que ler um livro dele, só para conferir se era legal desse jeito mesmo. Minha descoberta: é muito mais legal do que eu pensava. Nesse livro (cujo título já é uma história em si), O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu, ele se foca em lesões no hemisfério cerebral direito, que em geral criam sintomas considerados "esquisitos": como o homem do título, que não só confundia a cabeça de sua mulher com um chapéu, mas também não entendia coisas simples (como o que era o seu pé e o que era seu sapato), e no entanto era um homem muito inteligente em outros aspectos. Há os que perderam o lado esquerdo do mundo, os que acordaram e descobriram um membro que não era deles (quer dizer, o paciente acha que não é dele, mas é). Também há a descrição dos excessos, da esquizofrenia e sintomas de mania totalmente distintos. Todos os casos são temperados com várias referências à psicologia e à literatura, o que torna a leitura ainda melhor. Enfim, só tenho elogios ao livro: amei muito, e quando terminar de ler todos os outros livros que me esperam (só dez, sendo três para a faculdade), vou ler os outros do Oliver Sacks.

senta que lá vem história


Quando Nietzsche Chorou (Irvin D. Yalom) - 1992

Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. - As palavras de Nietzsche assomaram mais rapidamente, e ele prosseguiu célere. - Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, e não o desejado. Assim, permita que pergunte de novo por que deseja servir-me. (151)

Psicanálise não é minha matéria favorita na faculdade, e por isso relutei em ler o livro. Não deveria - apesar do blá blá blá psicoterápico, é uma boa história. Não tem um final chocante nem emocionante, mas é uma viagem introdutória e muito legal pelo universo da psicanálise, e, em especial, pela filosofia de Friedrich Nietzsche (estou sofrendo com o nome dele, portanto se alguma hora eu escrever errado, me perdoe). Nietzsche tinha ideias muitissimo interessantes, e que eu via com olhos de preconceito: a primeira coisa que ouvi é que ele afirmava que Deus está morto, então parei por aí mesmo, sem vontade de entender os motivos por trás da afirmação. O livro apresenta sua filosofia em doses terapeuticas e suaves, e consegui compreender um pouco de seus pensamentos. Quando tiver tempo - leia-se, nas férias - procurarei ler alguns de seus livros. Além disso, algo que está de parabéns em relação a história é os fatos verídicos que dão sua sustentação. Nietzsche e Breuer nunca se conheceram, apesar de contemporâneos; mas diversos elementos são reais. Fiquei surpresa com a capacidade (e um pouco com a sorte) do autor de juntar realidade e fantasia sem distorcer nenhum dos dois. É uma das qualidades que eu mais aprecio. Ah, e por fim, me tornei íntima de Freud; posso ainda não gostar muito dele, mas de agora em diante ele é o Sig para mim. :D


Não, pequeno gafanhoto, a foto que chocou Breuer não é uma invenção. Sim, também fiquei abismada. A gatinha do chicotinho é Lou Salomé; o parado como um dois de paus na frente é Paul Rée; e o do bigodinho é Nietzsche.

momento pipoca

Johnny & June (Walk The Line) - 2005

Há alguns anos atrás eu peguei o final desse filme na TV e achei lindo. Até consegui as músicas da trilha sonora, mas como não tive aquele "tchan" que dá quando ouço uma música boa (é, eu tenho isso), acabei excluindo e por consequência esquecendo do filme. Então, surpresa, descobri recentemente que meu namorado gosta das músicas do Johnny Cash. Demorei um pouquinho para ligar aquele filme ao cantor - inclusive tive que ouvir algumas músicas do mr. Cash para lembrar que já tinha ouvido em outra ocasião - mas assim que me lembrei fiquei louca para rever o filme, dessa vez desde o começo. E minha memória não falhou: realmente, é uma história linda, cheia de músicas boas (I Walk The Line e Folson Prison Blues são duas das músicas na qual eu estou viciada atualmente, e eu nem tinha revisto o filme!), daquela época onde Elvis e Beatles também faziam sucesso. O amor do Johnny pela June Carter é algo inexplicável, digna de filme mesmo. Quem, nesse mundo, pede 40 vezes a mesma pessoa em casamento? Eles foram feitos um para o outro, e é por ela que ele consegue sair do vício por medicamentos (tá que de certa forma foi ela que "fez" ele entrar nessa, mas deixe para lá). Viciei no filme, viciei ainda mais no Johnny e vou baixar as músicas dos dois juntos. Aliás, comentário adicional: June morreu em 2003, e Johnny morreu quatro meses depois. Nesse tempo sozinho (na verdade eles tiveram um filho, John Carter Cash, o nome mais fofo do mundo), ele escreveu o que meu namorado chama de "a música mais triste que ele já ouviu na vida": Hurt. Amanhã vou baixar e descobrir - mas, considerando a história deles, eu não duvido.

(Ah, mais um comentário adicional: foi Johnny Cash que fez uma música com o meu nome. :D Sabe quando tudo se encaixa? Bem isso.)

momento pipoca

Gamer - 2009

Chocante - não é a toa que tem a classificação de 18 anos -, mas não é só violência gratuita: é também uma crítica à banalização da violência e à utilização da tecnologia sem um olhar voltado para todos os homens, e não só para uma minoria que têm acesso a ela. Gerard Butler é um prisioneiro que faz parte de um jogo de tiro que é mais do que realidade virtual: é realidade mesmo, no seu sentido puro. Jogadores controlam seu personagem, como em um videogame comum, só que os personagens são pessoas reais que sofrem, se machucam e, com muita frequência, morrem. Michael C. Hall é a mente por trás do jogo. Ele acredita que, do mesmo modo em que há pessoas que querem controlar, há as que querem ser controladas. E, de fato, seus jogos de realidade alcançam um grande sucesso, desumanizando quem é controlado. Os jogadores consideram que aquilo é só um jogo, sem ver a dimensão real, e a morte se banaliza com esse olhar. A tecnologia desenfreada leva ao que, com o tempo, se transformaria em um exército de controlados, para poucos controladores - uma espécie high tech da luta de classes. Apesar de todo o sangue (na verdade, se fosse só o sangue nem iria ter muito problema, só que não é só isso), devo dizer que é um filme impressionante. Agora, vou reclamar né: por que o Michael só faz papel de pessoas más, hein? Magoei, meu fofinho (oun) não é malvado. Chega de papéis de psicopata para ele. :~ (Tá, ele pode continuar com o Dexter, óbvio, mas um papel leve de vez em quando em algum filme romântico não faria mal. Até o Gerard se beneficiou com isso. HAHA.)

seriously!

Ser etnocêntrica é uma coisa tão feia que eu tento evitar na maior parte do tempo. Claro que de vez em quando escapa um comentário etnocêntrico que merece um olhar fulminante, mas na maior parte das vezes eu tento relativizar, encaixar no conceito e entender - afinal de contas, em dentro de poucos anos eu serei uma psicóloga, e, sendo assim, tenho que saber relacionar as pessoas com o mundo, independentemente da abordagem que eu escolher. Só que, sério mesmo, eu não consigo relativizar agora. Não dá. Por isso, você, senhor dos meus pensamentos por tanto tempo, merece um grande SERIOUSLY e um tapa nessa sua cabeça agora cabeluda.

Não é a questão de você gostar de alguém. Juro por tudo que há de sagrado, incluindo nessa afirmação todos os meus livros amados e a revista francesa que custou 25 reais e que eu jamais consegui ler porque não entendo francês. Juro por tudo mesmo. Tudo que eu gostaria nessa vida era ver você com alguém que te valorizasse e fizesse um trabalho tão bom quanto o que eu faria, se eu pudesse ocupar esse posto. Na verdade um trabalho quase tão bom, porque eu saberia te valorizar de um jeito incondicional, mas isso você possivelmente nunca saberá. Mas não: você insiste na garota mais medonha do planeta. Aquela que não saberia dar um sorriso verdadeiro nem que isso servisse para salvar a vida dela. Aquela que manipula e adora ter na mão todas as variáveis, para coordenar os movimentos das pessoas próximas como se elas fossem enormes marionetes. Você e qualquer pessoa que a conheça agora podem dizer: mas você conheceu uma garota nova, ela mudou. É, mudou mesmo. Só que é importante frisar que eu peguei a construção da personalidade dela. Sei muito do que há de terrível por ali. Do mesmo modo que há várias coisas daquela Cindy metódica e tímida na Cindy de hoje, sei que há outras tantas - falsidade, joguinhos de poder, chantagem - na garota que você insiste em correr atrás hoje. Porque ela brinca com você a olhos vistos, e nem tenho como te avisar, porque meus argumentos se restringem à tela do computador e sentimentos claros, claríssimos como um cristal de excelente qualidade.

Não é ciúme, por Deus. É ela. E pior que todo mundo vê, menos você. Acho que o que me mantém presa nessa história ainda é esse meu sentimento de proteção. Eu não quero que você se machuque mais do que precisa, e com ela isso é inevitável. Claro que eu seria uma companhia muito melhor, mas isso é ser etnocêntrica e os antropólogos da minha vida não permitem (e nem só por isso, mas não vou entrar nesse mérito).

senta que lá vem história

Diários do Vampiro - O Despertar (Lisa Jane Smith) - 1991

No alto, as nuvens fluíam como um rio de chumbo. Os galhos dos carvalhos e faias se vergastavam loucamente. Uma lufada atirou punhados de folhas em seu rosto. Era como se o cemitério tentasse expulsá-la, como se estivesse lhe mostrando seu poder, preparando-se para fazer alguma coisa perversa com ela.

Elena ignorou tudo isso. Girou o corpo, o olhar ardente vasculhando entre as lápides. Depois se virou e gritou diretamente para a fúria do vento. Uma só palavra, mas aquela que Elena sabia que o traria.

- Damon! (236)

Não gostei, sério. Desde o começo eu estava revoltada com as diferenças do livro comparado ao seriado. Elena loira, linda, popular, fútil? Sério, que isso? Não precisa ser um poço de baixa auto-estima (estilo Bella Swan de ver a vida), mas ser rainha do colégio é demais para mim. Talvez porque eu nunca fui popular e nunca vi sentido nisso, daí não consigo me sensibilizar com os prazeres inúteis de controlar as pessoas. O papel da família dela é mínimo, coisa que é meio incompreensível visto que ela perdeu os pais. Além disso, os personagens não tem ligação um com o outro; por exemplo, no seriado o Matt, ex da Elena, tem uma irmã (que é a Vicki) que tem um caso com o irmão da Elena. Isso faz com que a trama fique mais interessante, porque problemas com um personagem atinge todos os outros. Ah sim, e claro, não gostei nem um pouquinho de Stefan e seus ataques de Poder ou seja lá o que for. Se ele está se alimentando de humanos, ele é tão mal quanto o Damon, #prontofalei. A única coisa interessante do livro foi conhecer a história da Katherine. Mas nem sei se vão utilizar essa linha de história mesmo, porque, ao que parece, no seriado a Elena é uma descendente da Katherine. E se a Katherine era uma vampira, ela não teve filhos - acho. Enfim, prefiro mil vezes o triângulo amoroso do seriado ao do livro. Ele tem muito mais vida e mais emoção.